Traduzido para 25 línguas e com mais de um milhão de exemplares vendidos, 1001 filmes para ver antes de morrer inclui obras de mais de 30 países e revela o que há de melhor no cinema de todos os tempos. Mais de 50 críticos consagrados selecionaram 1001 filmes imperdíveis e os reuniram neste guia de referência para todos os apaixonados pela sétima arte.

Ilustrado com centenas de cartazes, cenas de filmes e retratos de atores, o livro traz lado a lado as obras mais significativas de todos os gêneros - de ação a vanguarda, passando por animação, comédia, aventura, documentário, musical, romance, drama, suspense, terror, curta-metragem ficção científica. Organizado por ordem cronológica, este livro pode ser usado para aprofundar seus conhecimentos sobre um filme específico ou apenas para escolher o que ver hoje à noite. Traduzido para 25 línguas e com mais de um milhão de exemplares vendidos, "1001 filmes para ver antes de morrer" inclui obras de mais de 30 países e revela o que há de melhor no cinema de todos os tempos.
É claro que eu, amante das duas coisas Sétima Arte e Listas , não podia deixar passar a oportunidade de trazer para vocês a lista dos filmes e os respectivos links na nossa querida mulinha que vai trabalhar sem parar por um bom tempo...rsrsrs
Lembrem-se que as datas e traduçoes dos títulos dos filmes segue a lista do livro e não do IMDb.
Sempre que necessitarem de fontes na mula é só solicitar. Abraços a todos.

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domingo, 31 de julho de 2011

528. JOGOS E TRAPAÇAS - QUANDO OS HOMENS SÃO HOMENS (1971)

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McCabe é um jogador fracassado, que descobre o lugar ideal para a construção de sua própria cidade. Mrs. Miller é uma cafetina que propõe sociedade ao homem, abrindo e agenciando um bordel no local. Quando a parceria parece estar dando certo, McCabe recebe a visita de criminosos ricos e poderosos, que lhe fazem uma oferta irrecusável, por bem ou por mal.

Crítica
O nome de Robert Altman desperta, em qualquer cinéfilo antenado, a imagem de um cineasta iconoclasta, que inventou e refinou continuamente uma estrutura narrativa diferente, centrada na noção do coletivo em detrimento do individual, em filmes de caráter eminentemente urbano. No entanto, a impecável filmografia do cineasta não se resumiu a produções com estas características, presentes nos clássicos “Nashville” (1975) e “Short Cuts” (1993). Um dos melhores exemplos de que Altman podia ser genial e transgressor, mesmo trabalhando fora de suas características habituais, está em “Jogos e Trapaças – Quando os Homens São Homens” (McCabe & Mrs. Miller, EUA, 1971), um drama de época naturalista, ambientado do Velho Oeste e encharcado de amargura e dor.
Quando embarcou na produção do longa-metragem, Altman já era um cineasta de sucesso. Ele acabara de assinar seu primeiro grande filme, a comédia de guerra “M.A.S.H.” (1970), e mudava radicalmente de ambiente. “Quando os Homens São Homens” foi uma grande produção – a equipe ergueu uma cidade cenográfica completa, com uma dúzia de casas, igreja, bar e bordel, tudo com interiores mobiliados. Além disso, dois dos maiores astros da época – o ator Warren Beatty e a atriz Julie Christie – viveram os protagonistas. Todos enfrentaram condições inóspitas, incluindo muita chuva e neve, com o objetivo maior de entregar ao público uma história de realismo absoluto sobre os tempos difíceis da conquista do Oeste.
“Quando os Homens São Homens” é legítimo representante do período mais importante do cinema independente norte-americano, quando uma nova geração de cineastas aportou em Hollywood e mudou a cara do cinema épico e melodramático que se fazia por lá. O faroeste de Altman tem um quinhão importante nesta mudança, pois rompe brutalmente com a tradição do western épico de John Ford e Howard Hawks. O Velho Oeste de Robert Altman despreza o visual idílico de outrora, com pradarias esverdeadas, desertos dourados de sol e tons crepusculares. Nada de glamour aqui. O Oeste de Altman é um lugar gelado e úmido, onde lama e neve grudam na canela e os caubóis, sujos e fedidos, bebem até cair e fumam ópio em salões apertados, como maneira de fugir da dura realidade em que vivem. Nesta terra de amargura e pesadelo, até mesmo caminhar é difícil – e permanecer vivo se revela algo bem mais complicado do que poderia parecer.
A produção acompanha o nascimento da cidade de Presbiteryan Church, ao lado de uma mina, numa região gelada e montanhosa da fronteira ao norte dos Estados Unidos, perto do Canadá. O ponto de vista é do jogador John McCabe (Beatty). Charuto na boca e pose de macho, McCabe chega ao vilarejo farejando oportunidade de ganhar dinheiro. Ali, onde só existem pé-rapados solteiros em busca de fortuna, um sujeito com um pé-de-meia modesto como ele é uma espécie de rei. A idéia de McCabe é comprar algumas escravas e montar um bordel para proporcionar diversão aos mineradores. O negócio só prospera mesmo, contudo, depois que a experiente prostituta Constance Miller (Christie) chega ao local e propõe sociedade a McCabe.
Mrs. Miller tem tino para os negócios e é pragmática ao extremo. Calejada pela vida difícil, ela não alimenta mais nenhum tipo de idéia romântica, para desespero de McCabe, que cai de quatro pela mulher, mas não tem a menos idéia de como lhe dizer isso. Semi-analfabeto e de modos rústicos, o jogador não possui nenhum tato com mulheres. “Eu tenho poesia em mim”, esbraveja ele diante do espelho, numa das seqüências mais tristes do filme. Ele não sabe, mas suas preocupações sentimentais logo ficarão pequenas, quando ele descobrir que uma traiçoeira empresa de seguros está achando que o negócio montado por McCabe tem futuro, mas não para ele.
Este é um caso raro de filme cuja estética naturalista complementa perfeitamente o tom amargo da narrativa. Tudo está no seu lugar em “Quando os Homens São Homens”: a fotografia escura e elegante de Vilmos Zsgmond capta com perfeição o estilo de vida rústico dos mineradores; os objetos cênicos são peças de museu verdadeiras e/ou construídas à maneira dos antigos pioneiros (observe como as casas de madeiras foram montadas sem o uso de pregos, que não existiam na época); e a música triste do trovador Leonard Cohen emoldura com perfeição a atmosfera lenta e melancólica do longa-metragem.
Para completar, os dois personagens principais desenvolvem uma relação complexa que vai muito além das palavras, e só se manifesta completamente através de sinais não-verbais, como olhares e trejeitos. Aqui, embora haja dois protagonistas evidentes e a estrutura narrativa gire sempre em torno deles, Altman demonstra grande interesse em mostrar a organização social da época, caprichando nas celas coletivas e capturando as conversas entre os mineradores da forma mais despojada possível. Além de tudo isso, o filme possui um epílogo fantasmagórico, que culmina com um dos tiroteios mais realistas jamais mostrados em qualquer faroeste. Em resumo, uma maravilha cinematográfica, e um dos grandes títulos assinados por Altman.
Por: Rodrigo Carreiro

Premiações
- Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Julie Christie)em 1972
- Indicado ao BAFTA de melhor Fotografia em 1973

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domingo, 17 de julho de 2011

522. O JARDIM DOS FINZI-CONTINI (1970)

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No final dos anos 30, em Ferrara, Itália, os Finzi-Contini são uma das importantes famílias da cidade. São aristocratas, ricos e judeus. Os filhos mais velhos - a bela Micol e o refinado Alberto - sempre reúnem os amigos para disputadas partidas de tênis, além de promover festas muito alegres. Giorgio é um dos amigos da família, apesar de ser um judeu de classe média. Ele está apaixonado por Micol. Mas eis que os italianos fascistas se aliam aos alemães nazistas, dando início à perseguição dos judeus.

Premiações
*Oscar 1972 (EUA)
-Venceu na categoria de Melhor Filme (estrangeiro) (Itália).
-Indicado na categoria de Melhor Roteiro (adaptado).
*BAFTA 1973 (Reino Unido)
-Recebeu o Prêmio UN.
-Indicado na categoria de Melhor Fotografia.
*Festival de Berlim 1971 (Alemanha)
-Recebeu o Urso de Ouro (Melhor Filme) e o Prêmio Interfilm - Prêmio de Cinema Otto Dibelius.
*Prêmio David di Donatello 1971 (Itália)
-Venceu na categoria de Melhor Filme e recebeu um Prêmio David especial.

Críticas
"A perseguição sob o fascismo de uma família de judeus cujos sonhos e esperanças são carregados pela tempestade antissemita. Do belo romance de Bassani, o filme consegue reconstituir a atmosfera às vezes singular e cativante. São sensíveis aqueles que observam de longe a vida de uma família judia muito aristocrata retraída entre seus vastos domínios e que, os anos passando, terminam por se aproximar, sem verdadeiramente reduzir, a distância daquela sociedade."
"O filme não é verdadeiramente um quadro da sociedade italiana de 1929 até 1943, nem uma evocação do meio judeu de Ferrara, mesmo que não faltem as cenas saborosas ou trágicas. Ele sugere, sobretudo, isso que poderia ter sido a cultura refinada e discreta dessa elite judia que a Europa do século XIX admitiu pouco a pouco e que ela em seguida quis exterminar. A personagem de Micol, moderna e impenetrável, é de uma grande poesia."
"marcou o retorno internacional de um diretor que nunca tinha deixado de trabalhar, mas cuja fama tinha decaído desde os tempos de obras-primas neo-realistas como Umberto D (1952)”. “Estilisticamente, o filme não é nenhuma obra-prima. Mas ganha vida nos momentos em que De Sica gruda sua câmara em closes de suas estrelas fascinantes (Dominique Sanda e Helmut Berger, especialmente) para observar o dardejar furtivo de seus olhos nobremente expressivos. O Jardim dos Finzi-Contini é uma parábola aguda e tocante sobre a relação entre os dramas pessoais e políticos, privados e públicos. O drama social que invade a história torna as palpitações românticas por vezes insignificantes, desesperadas, absurdas e pungentes."

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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

473. MOGLI - O MENINO LOBO (1967)

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Um dos desenhos mais populares de todos os tempos, O Livro da Selva é uma celebração da amizade, diversão e aventura, recheada de lindas canções em um mundo exuberante e colorido. Inspirado nas histórias de Mogli, de Rudyard Kipling, esse clássico animado foi o último a receber o toque pessoal e especial de Walt Disney. Essa deliciosa aventura começa quando Mogli, um menino criado por lobos, é influenciado por sua amiga Bagheera, uma experiente e esperta pantera, a ficar em segurança na vila onde moram os humanos. Se sentindo em casa na selva, Mogli foge selva adentro onde encontra Baloo, um urso adorável. Juntos, os novos amigos partem em busca da civilização, encontrando no caminho divertidos colegas como um Canguru biruta, uma cobra hipnotizante e Shere Khan, um tigre ameaçador.

Premiações
Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("The Bare Necessities".)

Curiosidades
* The Jungle Book foi o 19º clássico animado da Disney e o último desenho animado em produção supervisionado por Walt Disney.
* Quando Walt Disney faleceu, em 15 de dezembro de 1966, The Jungle Book ainda estava em produção. O filme foi lançado apenas dez meses depois, com críticas positivas e bilheteria quebrando todos os recordes.
* A canção ´´That's What Friends are For´´cantada pelos abutres era para ser cantada ao estilo dos Beatles contudo foi substituída porque Walt Disney achou que ia passar de moda.
* Em ´´The Jungle Book´´ houve apenas uma personagem que foi eliminada. Chamava-se Rocky e era o rinoceronte que fazia parte da sequência da versão rock da música ´´That's What Friends are For´´. Contudo, quando a canção foi substituída, a personagem foi tirada porque Walt Disney achou que não havia equilíbrio por haver muitas cenas de ação seguidas.
* Na década de 90, os personagens Balu, Share Khan e Rei Louis estrelaram a série Tale Spin, onde Balu era um urso aviador, Rei Louis o dono de um clube e Share Khan um empresário ganancioso e corrupto.

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sábado, 2 de outubro de 2010

442. JULIETA DOS ESPÍRITOS (1965)

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Numa casa de campo, Julieta passa seus dias sossegada com seu marido. Porém, durante seu aniversário de casamento, suas irmãs aparecem para a festa, e trazem um guru psíquico, que faz uma evocação de espíritos. À partir deste evento, Julieta começa a ser atormentadas por visões do outro mundo, que parecem tentar mostrá-la os rumos de sua vida, bem com a traição do marido. Mas, seriam estes espíritos amigos?

Premiações
* Globo de Ouro - Melhor filme em língua estrangeira.
* Indicado ao Oscar de Melhor direção de arte e de melhor figurino.
* Fita de Prata de Melhor fotografia do Sindicato dos Jornalistas Críticos de Cinema, Itália.
* Fita de Prata de Melhor cenografia do Sindicato dos Jornalistas Críticos de Cinema, Itália.
* Fita de Prata de Melhor atriz coadjuvante (Sandra Milo) do Sindicato dos Jornalistas Críticos de Cinema, Itália.

Crítica
Julieta vive numa bela casa perto da praia, É uma mulher espiritual, supersticiosa e ingénua. Um dia, visita um psíquico que lhe diz que tem de seguir o caminho do sexo para ser feliz. Pouco depois, conhece a sua excêntrica e sexual vizinha que a encoraja a praticar actividades sexuais que a fazem sentir nervosa e culpada. Uma noite ela apanha o marido a falar com outra mulher ao telefone. Ele disfarça e ela teme que o marido a abandone por outra. Julieta começa a ter visões que a aterrorizam. Ela acaba por entender nessas visões que ficava melhor sem marido e torna-se emocionalmente emancipada.

O primeiro filme a cores de Fellini. Um facto que ajuda a interpretar uma mudança de rumo tão brusca, apesar de precedido pelo visionário e também fantástico Otto e Mezzo. É operado um corte definitivo com o neo-realismo, influência brutal no seio da sua arte, mas que é abandonada apartir daqui. O realizador constroi uma ópera de puras imagens surreais e mirabolandes, com base nas suas reminiscências e na mentira, dentro dos domínios do grotesco e do exótico. Imagens essas que são encenações do estado interior das suas personagens, e da sua visão desinibida do mundo. Esta nova forma de fazer filmes, aliada e intrinsecamente dependente de um novo conceito estético, é também ela um processo de caracterização revolucionário, que previlegia novos ritmos, e novas acepções de captura emocional, baseadas numa linguagem muitas vezes simbólica, e numa transmissão subconsciente e familiar - traduzindo por si, de acordo com o realizador uma nova, e mais natural aproximação ao real.

Nas palavras do próprio, numa entervista a Pierre Kast: "Há um motivo que prepassa em todos os meus filmes, é a tentativa de uma libertação dos esquemas convencionais, um esbatimento das regras morais, ou seja, uma tentativa de encontrar os autênticos ritmos da vida, dos modos de vida, das cedências vitais, que se opõem a uma forma inautêntica da vida". Apesar de sequências embrionárias da explosão do estilo que o veio a tornar um cineasta marginal, em relação a qualquer forma ou enquadramento artístico dentro do mesmo âmbito (entre as quais, de destacar a sequência da festa de carnaval em I Vitelloni, ou o barroquismo das festas aristocráticas em La Dolce Vita), é com Guilietta Degli Spiriti que o cineasta se afirma como autor e psicólogo de uma nova aproximação ao real, e conclusivamente, a uma nova aproximação à arte cinematográfica.

Há que mergulhar dentro de um universo paralelo ao do cinema convencional fundamentado na escola americana, a que este tipo se opõem bruscamente, para podermos tirar proveito dele. São idealizações diferentes, quanto ao processo fenomenológico do conhecimento, e a dimensão cinematográfica, juntamente com a sua relação de dependência durante o processo de visualização. Fellini parte igualmente de uma premissa relativamente linear, cujas raízes penetram na experiência comum, e o acontecimento tem a sua origem no quotidiano, para oferecer um retrato pessoal da mente humana, aquando de determinados problemas, que se revelam em torno de um principal. Novamente, a influência e a dependência social, tal como o sexo são temas recorrentes. Desta vez são tratados sob um prisma particular, que reside no carácter de Giulietta (personagem), e na interpretação de Giulietta (Masina, sua mulher) - o medo, a insegurança, e a impotência. Nascem apartir de sentimentos de alguma constância, e de algumas e particulares emoções fortes, os fantasmas e as visões de um pitoresco mirabolante, que a atormentam ao longo do filme. Verifiquei a preciosa preocupação de traçar uma gradação quer do ponto de vista visual, quer quanto à densidade psicológica do filme por parte de Fellini, que corresponde à progressiva alienação da personagem chave, com origem no estado misantrópico da sua mente. A psicanálise tem um papel importantíssimo no filme, como influência das caracterizações dos espíritos, espelhos exteriores da alma humana (nota para a pista lançada ao início pelo jogo de espelhos e pelas perucas), evocados para uma dissecação profunda da psique de Giulietta.

É de bom tom evocarmos as referências cartoonistas e circenses, practicamente omnipresentes em toda a sua obra, mas que porém, ganham a aqui um novo significado, e são parte de um apreciável exagero, de um barroco grotesco na captura, que por muitas vezes nos dá relances de fetichismo por parte do autor, previligiando muitas vezes uma atitude puramente fisionómica e erótica. A cor, só por si é um acontecimento. É notável o contraste sentido muitas vezes na transição dos planos, devido ao tom espampanante e carnavalesco da paleta de cores utilizada, e pelo prezo em relação à contradição e confusão, tão admiradas e utilizadas por Fellini em quase todas as suas obras. Aqui, é também uma chave, pois podemos destinguir uma intervenção directa, e omnipresente (estamos a falar da fotografia...) de temáticas características, mas anteriormente pouco exploradas, que no fundo são o filme. O filme ganha uma aura surreal, acompanhada de grande actualidade, não só pelo seu estilo desenquadrado, apesar de embebido em psicadelismos (o próprio maestro afirma ter administrado LSD para o design de alguns exteriores e personagens), mas pela prospecção de temas e pressupostos extremamente pertinentes. Não foram poupadas despesas (Elefantes... Planadores... Barcos....); a cenografia é absolutamente espantosa e toda ela sugestiva; a banda sonora de Nino Rota acompanha o carnaval.

Quanto à construcção visual, predominam meias figuras, com bastantes grandes planos e insertos/planos-detalhe; mas intercalados por outros tantos campos largos, e paisagens de sonho. Notas para encaixes deliciosos com televisões, brechas e espelhos; para a pequena profundidade de campo, para os enquadramentos em cadrage e para um certo desprezo/ausência pelos foras de campo, aquando principalmente de uma contemplação do deslumbro visual oferecido. Essencialmente, e de acordo com a minha concepção de bom cinema - coerência. Um pleno triunfo do autor, e do seu cinema-mentira, como tanto gostava de exaltar, em relação a uma verdade incompleta e menos prazenteira. Antecede e nasce de outros fundamentos, mais explícitos que os seus filmes posteriores: Satyricon e Roma, que compartilham muita da sua mise en scéne, e de um certo avant-guardismo erudito de alto teor individual, inaugurado com Giulietta Degli Spiriti.
Fonte

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domingo, 4 de julho de 2010

375. JULES E JIM - UMA MULHER PARA DOIS (1961)

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Dois amigos, o francês Jim (Henri Serre) e o alemão Jules (Oscar Werner), vivem a efervescência das artes e da boemia na Paris da belle époque quando conhecem uma mulher por quem logo se apaixonam: Catherine (Jeanne Moreau). O triângulo se estende alegre e despreocupadamente, até que Catherine resolve casar com Jules - ainda que mantendo o relacionamento com Jim. Mas as coisas já não são como antes e, para aumentar o distanciamento, surge a Segunda Guerra.

Crítica
Realizado a partir do romance de Henri-Pierre Roché, Jules e Jim(1962), a obra prima de François Truffaut, é um híbrido formal. É sabido que o recurso à literatura sempre foi, no cinema, algo bastante aceito. Muitos filmes foram adaptados de romances e peças teatrais.Em Hollywood, por exemplo, trabalharam diretamente como adaptadores e roteiristas escritores proeminentes como Fitzgerald e Huxley. Nesse sentido, Truffaut não esteve à frente de seus antecessores, é verdade. Se há em Jules e Jim um encanto particular é, sem sombra de dúvidas, por ser um daqueles casos raros em que o conteúdo e a expressão se enleiam e conferem a obra total precisão e potência discursiva. Em outras palavras, a história de amor de Jules e Jim não poderia ser, no cinema, contada de outra maneira.
Se a literatura conta com a liberdade imaginativa individual, portanto com nosso pacto de não sufocar demasiado as palavras com as imagens que se desprendem delas, o trabalho do “cinema literário” é de uma delicadeza quase impossível. Uma imagem literária quase sempre surge de maneira difusa, bastante viscosa, poderíamos dizer. Uma imagem duplamente subordinada à matriz textual e à disposição de cada um em gerá-la. Na outra mão, aparentemente, à imagem no cinema nada subordina. A imagem surge ela mesma, impositiva, porque é o que é. Ainda que Truffaut tenha insistido ser “Jules e Jim antes um livro cinematográfico que um pretexto para um filme literário”, não poderá fugir a evidência de ser seu filme uma outra obra.
O filme conta a história de um denso triângulo amoroso vivido na Paris do início do século XX. Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre) conhecem-se no ambiente vibrante da noite parisiense e logo partilham suas paixões. Pela literatura, pelas noitadas, pelas mulheres. Partilham as mulheres. Eis uma grande amizade vivida na superfície das afecções. Jules e Jim recriavam para si tudo o que viam e tudo o que viam era um ponto recriador da sua própria relação como amigos. Havia leveza e um certo descompromisso com a objetividade do mundo. Havia leveza até mesmo na obsessão por um busto feminino que os arremata e os silencia por mais de uma hora de deleite. Mas Jules e Jim conhecem Catherine.
Catherine(Jeanne Moreau. é a dimensão trágica que faltava à Jules e Jim. Subitamente os amigos são arrastados pelo real mais real que imagem de Catherine produzia neles. Foi impossível não se deixar arrematarem também por aquele busto de mulher vivo, pela encarnação daquela beleza idealizada no Adriático. Catherine apresentou o amor, tal qual como conhecemos hoje, ao romantismo boêmio de dois amigos até então indiferentes ao mundo.
O amor sobre qual o século XX se jogou e quis dele tirar tudo quanto mais não conseguiu tomar pelos caminhos da guerra. O amor igualmente extremado, sangrento e irremediavelmente trágico, ainda que vivaz, potente e purificador. O amor que quis enterrar de vez o romantismo e suas convenções. Esse foi o amor encarnado por Catherine, uma imagem que se debate sobre si mesma pra continuar viva. Catherine aprisionou Jules e Jim, deu-lhes densidade aos seus sentimentos, era uma linha de morte trançada a uma linha de fuga. Catherine deixava-se ser um quadro limpo de mil inscrições possíveis sobre o qual o desejo de Jules e Jim se inscrevia, sobrescrevia. Ao mesmo tempo, Catherine abandonava seus sobrecódigos a cada respiração, de maneira arbitrária como uma respiração. Deixava para trás sua pele ela toda inutilizável, gravada com palavras sem sentido e sem vida. Devolvia o abismo de si mesmos aos amigos Jules e Jim e os convidava novamente a aprisioná-la. Mas cada reimpressão de sentido, cada corrente que se fechava sobre a intensidade de vida que havia em si, Catherine reencontrava o próprio fantasma vazio de si mesma, como a amoralidade que vira moral, ou o relativismo que não consegue se desterritorializar, ou ainda, à maneira de Nietzsche, como um o oriente que não consegue ir ao oriente de si mesmo.
O destino ofereceu Catherine a Jules e Jim. Truffaut nos ofereceu uma imagem que também quer ela pular, ou deixar que pulemos a partir dela, no abismo da imaginação. A busca pelo mais-ser engendrada pelo devaneio da imagem não acontece sem desdobramentos, articulações múltiplas, litígios de forças. Mesmo no romance a imagem está para o texto como elemento de conteúdo repleto de expressão, ainda que a forma desse conteúdo não nos remeta diretamente a forma de expressão originária do código da linguagem. Na genialidade do cinema literário de Truffaut essa relação é duplicada, quadruplicada...E em algum termo invertida, já que a imagem torna-se, na materialidade da película, também um significante. Nos perdemos na potenciação quadrada das articulações da língua, já não conseguimos distinguir o elemento expressivo do seu conteúdo, nem o operar o oposto. Um desdobramento que também é dobramento.
O abismo de Catherine nos alcança de maneira trágica. Seu jogo moral com Jules e Jim é um tormento maravilhoso. Seu jogo amoroso um constante flerte com a morte. Ao amor desse triângulo não cabem epítetos. Como poderiam caber aos seus amantes? O grande paradoxo é que Jules, Jim e Catherine encarnam suas não-identidades. E não podem deixar de afirmar o significante que são. Como o conteúdo não pode ser subtraído da expressão. A morte surge como a única saída. Daí a grande tragédia inscrita em toda codificação...
Paulo Carvalho

Premiações
*Prêmios Bodil - Copenhague, Dinamarca
Bodil de Melhor Filme Europeu
*Festival de Cinema de Mar del Plata, Argentina
Prêmio de Melhor Direção (François Truffaut)
*Sindicato dos Jornalistas Críticos de Cinema, Itália
Prêmio Fita de Prata de Melhor Direção (François Truffaut)

Indicações
*Academia Britânica de Cinema e Televisão, Inglaterra
Prêmio de Melhor Filme
Prêmio de Melhor Atriz Estrangeira (Jeanne Moreau)

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