Traduzido para 25 línguas e com mais de um milhão de exemplares vendidos, 1001 filmes para ver antes de morrer inclui obras de mais de 30 países e revela o que há de melhor no cinema de todos os tempos. Mais de 50 críticos consagrados selecionaram 1001 filmes imperdíveis e os reuniram neste guia de referência para todos os apaixonados pela sétima arte.

Ilustrado com centenas de cartazes, cenas de filmes e retratos de atores, o livro traz lado a lado as obras mais significativas de todos os gêneros - de ação a vanguarda, passando por animação, comédia, aventura, documentário, musical, romance, drama, suspense, terror, curta-metragem ficção científica. Organizado por ordem cronológica, este livro pode ser usado para aprofundar seus conhecimentos sobre um filme específico ou apenas para escolher o que ver hoje à noite. Traduzido para 25 línguas e com mais de um milhão de exemplares vendidos, "1001 filmes para ver antes de morrer" inclui obras de mais de 30 países e revela o que há de melhor no cinema de todos os tempos.
É claro que eu, amante das duas coisas Sétima Arte e Listas , não podia deixar passar a oportunidade de trazer para vocês a lista dos filmes e os respectivos links na nossa querida mulinha que vai trabalhar sem parar por um bom tempo...rsrsrs
Lembrem-se que as datas e traduçoes dos títulos dos filmes segue a lista do livro e não do IMDb.
Sempre que necessitarem de fontes na mula é só solicitar. Abraços a todos.

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

489. A HORA DO LOBO (1968)

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A história decorre numa ilha, onde um casal – Liv Ullmann (recém casada, na altura, com Bergman) e Max Von Sydow – vive, praticamente isolado. Ao longo do filme vamos conhecendo várias personagens circenses e vampíricas que accionam e detonam os fantasmas de Von Sydow. Liv Ullman interpreta Alma – nome igual ao da enfermeira de Persona -, uma (mais ou menos) viúva que nos conta a história do marido ou dela. Já Johan, a personagem masculina, é um pintor que se reclusa com a mulher naquela ilha, amedrontado com os mesmos fantasmas que propulsionam a sua veia criadora. John e Alma nunca dormem durante as cinco e as sete da manhã – período em que se insere a hora do lobo, supostamente o momento do dia em que, devido a atracção da lua, mais gente nasce/morre e que é também a altura mais propícia para a prática de magia – e o cumprimento deste ritual torna a mente de Johan numa entidade cada vez mais instável.

Crítica
Diante a profunda perplexidade de mais um filme do graestre sueco, me vem a pergunta fundamental: seríamos mesmo capazes de conseguir exprimir em palavras as múltiplas e infinitas sensações que nos é invadida após assistirmos algum filme do Bergman? E o que dizer daquilo que é indizível, cujas palavras não conseguem se unir (quanto menos se perder) para dar conta de um emaranhado confuso e intenso de tormentos psicológicos, tão abstratos e dispersos quantos os nossos pensamentos, cuja expressão só se faz presente pela total desconstrução da linguagem, da quebra de paradigmas do início, meio e fim? Se teorizar sobre cinema já se faz uma arte difícil, o que dizer então quando se trata de teorizar sobre a filmografia do maior cineasta vivo (salvo controversas de gostos e contragostos, coisa que não devemos questionar)? Para falar a verdade, o nosso querido Bergman amedronta, não porque seus filmes possam soar hermético demais para um público que não costuma a assistir cinema pela arte em si, mas sim porque são realmente raros os cineastas que conseguem expressar, se não em palavras, mas em imagens, o que nem mesmo conseguimos refletir.

Talvez deixar de preocupar-se em entender e permitir-se apenas sentir seja realmente o nosso grande consolo deixado pela imortal Clarice Lispector. Mas não é o bastante para aqueles que se angustiam pela busca de um sentido, pela busca da palavra exata que possa exprimir o sublime de uma obra de arte. Nesse sentido, a angústia de um [bom] apreciador de cinema (note que não uso o termo crítico pela falta de um termo mais condizente) chega a lembrar a angústia psicológica do artista, não o artista Johan Borg propriamente dito, mas do artista (no sentido nato da palavra) em geral. A angústia do fazer literário de um escritor, em que o conceito de beleza, harmonia e perfeição sempre estiveram marcadamente regidos por um universo de assombro e fascinação não deve ser comparada à angústia do personagem Joahn Borg – magistralmente interpretado pelo grande Max von Sydow - unicamente porque sentimentos são abstratos demais para serem postos em uma balança com o fim de serem comparados.

Mas se pudermos apontar alguma temática abordada em A Hora do Lobo - aquela trepidante hora que antecede o amanhecer; em que vários enfermos morrem, mas, também, em que muitos bebês nascem – esta seria o enigma da criação artística. No filme, o pintor que se refugia com sua linda e dedicada mulher chamada Alma (interpretada por Liv Ullman, na época, grávida da filha Linn Ullmann, fruto da união com Bergman) e que passa a ser perseguido por fantasmas psíquicos (e antropófagos) diz, num jantar (felliniano) promovido pelos seus próprios fantasmas, que, em sua criação, não há nada evidente, fora a obrigação. "Preciso apenas considerar a completa falta de importância de arte no mundo dos homens e volto para a Terra rudemente. Mas a compulsão persiste", nos fala Borg. Nas palavras do criador, Bergman nos diz que "Borg se defronta com um "é preciso", uma dor que nunca o abandona, como uma dor de dente. (...) Não se trata portanto aqui de um Dom vindo de cima. Não há relação extraterrena em tudo isto. Só há, nisto , uma doença, uma perversão, um fenômeno. Ele vê a situação de uma forma muito brutal. (...) Fala-se aqui do artista como um eleito. De qualquer forma, sei que quando escrevi esta cena, quis exprimir o sofrimento, o seu sofrimento."

Os conflitos internos de Johan, os demônios que eles representam, manifestam-se em suas pinturas através de retratos surreais e impressionistas de uma sociedade sufocante que sempre o perseguiu: as máscaras que camuflam a identidade das pessoas são expressadas por um quadro em que uma mulher, ao jogar seu chapéu, acabar por jogar sua face junto; os homossexuais; o diretor da escola, os carnívoros, os insetos e a figura de um homem-pássaro, cujo bico também lhe esconde um possível parentesco com o papagaio de "A Flauta Mágica" (obra de Mozart homenageada na Hora do Lobo e que, mais tarde, vai servir de inspiração a um musical com o mesmo nome); tudo isso compõe um universo delirante, já vivenciado pelo próprio Bergman quando ainda era um garoto que sonhava em ser cineasta. E aqui convém um destaque especial para a seqüência em que Borg mata um garotinho. "Nesta cena, trata-se na verdade, de exprimir o medo intenso que sente Joahn Borg de ser mordido. A criança é um dos demônios. Joahn Borg não pode discernir se o que aconteceu é sonho ou realidade, se ele atingiu mortalmente um garotinho vivo ou se tudo isto só existe na sua imaginação. A fronteira entre o sonho e a realidade está inteiramente apagada", revela Ingmar Bergman, que só passou a libertar-se de seus "demônios" quando a superestrutura religiosa imposta pelo catolicismo ortodoxo de seu pai foi abandonada mais tarde pelo grande cineasta sueco.

Porém, Bergman é conhecido também por ser imprevisível, e não podia ser diferente em "A Hora do Lobo". A quebra da expectativa de estarmos diante de um filme essencialmente autobiográfico é feita logo no início do filme, já que podemos escutar Bergman a conversar com os técnicos. É um filme, então, o que estar por vir. Utilizando-se de um recurso muito próprio do teatro (leia-se parábase), Bergman utiliza fórmula semelhante ao que foi usada por Godard em Acossado, quando Belmondo vira-se de vez em quando para o público para comentar a ação. Liv Ullman várias vezes estar a conversar com o espectador. Eram realmente poucos os filmes que traziam tal técnica, o que com certeza pode explicar tanta polêmica.

Os pavores existenciais do angustiado pintor são palpáveis, reais. Uma possível esquizofrenia do mestre é descartada porque, com o passar do tempo, a dedicada Alma também se torna a vítima de suas alucinações. A teoria que sustentava de que pessoas velhas que moram juntas por muito tempo começam a se parecer umas com as outras, se concretizam e ela também visualiza, inerte, os tormentos do marido, que assim como Tamino de "A Flauta Mágica", só se acalma quando o interminável minuto de uma noite escura cede lugar a tranqüilidade de um novo e ensolarado dia.

O limite foi atingido. Finalmente eu lhes agradeço. O vidro está despedaçado, mas o que se reflete nos cacos? Podem me dizer isso?", pergunta Borg quando encontra a luz que tanto procurava. Quem pode dizer? E aqui talvez cabe uma humilde reflexão sobre a arte. Espantamo-nos à medida que conhecemos um pouco mais sobre nós mesmos, sobre o que nos impulsiona e nos mantém vivos. Para um escritor, talvez o ato de "escrever" seja comprometer-se intelectualmente; ou seja, assumir antes um compromisso com você mesmo diante daquilo que você pensa sobre o mundo. Não somente isso. "Escrever é conhecer-se"; como dizia Clarice Lispector, "é lembrar-se do que nunca existiu"; sem se preocupar com o rótulo que ela possa vir a ter, pois "o hermetismo depende mais do leitor do que do próprio autor", já dia João Cabral de Melo Neto.

E que bom que Bergman ajudou a nos conhecer também.

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487. VERGONHA (1968)

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Os efeitos de uma guerra civil no relacionamento de um casal de músicos. Eva e Jan Rosenberg, ambos violinistas que, desde que sua orquestra foi dissolvida, têm trabalhado em uma fazenda isolada para ganhar a vida. Quando sua área é invadida por tropas rebeldes, a paisagem anteriormente bonita é transformada em um pesadelo de morte e destruição.

Premiações
Indicado ao Golden Globe de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1969
Vencedor do Cinema Writers Circle Awards, na Espanha na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

Crítica
Originalmente da United Artists, este é dos filmes menos conhecidos de Bergman (1918-2007), que, como de hábito nesta fase, foi rodado na ilha onde morava, a de Faro. Filmado logo depois de "A Hora do Lobo", é o único filme de guerra do diretor. Naturalmente, ele não identifica que guerra, ou o que esta acontecendo exatamente. Na verdade, o que lhe interessa é mostrar como os seres humanos reagem a uma situação de guerra. No caso, parece ser uma guerra civil. Morrem vizinhos e eles chegam a ser presos como colaboracionistas. São liberados, mas um capitão continua a persegui-los.

Indicado ao Globo de Ouro de filme estrangeiro, ganhou no National Board of Review como filme estrangeiro e atriz. Mas é um filme tão fora da tradição do diretor que, embora tenha sido feito durante a Guerra do Vietnã, parece ser mais contra qualquer guerra, não importa de que lado você esteja. Não que o filme tenha uma mensagem óbvia ou faça discursos, Bergman não era um diretor político ou menos ainda engajado.

Seco, mesmo árido, é belamente fotografado em preto e branco. Muita gente interpreta que a "vergonha" seja de Deus. Se uma pessoa acordar uma manhã e tiver vergonha do que fez? Essa pessoa poderia ser o próprio Deus. Para Liv Ullman, o filme rodado com o mínimo de orçamento e o máximo de rigor, é uma alegoria sobre o povo na guerra, sobre gente comum, que mal entende os motivos do conflito, quem está do lado certo ou errado; guerra como o mal social definitivo. Mostra a desintegração das pessoas e de um casal, numa situação louca e sem sentido. Afinal, quem vai nos matar?

Rubens Ewald Filho - Cinema Uol

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sábado, 23 de outubro de 2010

455. PERSONA (1966)

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Uma atriz teatral de sucesso sofre uma crise emocional e emudece. Para se recuperar, parte para uma casa de campo, sob os cuidados de uma enfermeira, que a admira e tenta compreender a razão de seu silêncio. Isoladas, as duas mulheres desenvolvem uma relação de forte intensidade emocional.
A impressionante seqüência inicial, as atuações viscerais de Bibi Andersson e Liv Ullman, a brilhante direção de Bergman fazem de Persona uma experiência cinematográfica fascinante e inesquecível.

Premiações
- Indicado ao Bafta de Melhor Atriz (Bibi Andersson)
- Vencedor dos Prêmios Guldbagge de Melhor Atriz (Bibi Andersson) e Melhor Filme
- Vencedor dos Prêmios da Sociedade Nacional dos Críticos de Filmes (NFSC), EUA, de Melhor Atriz (Bibi Andersson), Melhor Diretor (Ingmar Bergman) e Melhor Filme

Crítica
Deixado de lado o título brasileiro original que sempre foi considerado ridículo, "Quando Duas Mulheres Pecam". É um dos grandes filmes do mestre Ingmar Bergman, notável em vários aspectos, inclusive por ter sido o primeiro trabalho com sua então nova mulher, a atriz norueguesa Liv Ullman, que seria sua parceira em algumas outras obras primas e com quem trabalha até hoje.
Começa de forma inesquecível (e original na época) mostrando o processo de projeção de um filme com um velho cartão queimando, o fotograma, o desenho animado, o filme antigo e mudo, a morte da ovelha (meio Buñuel), a mão pregada na cruz como Cristo. Deixando claro que é cinema. A seguir, as primeiras imagens são cadáveres. Mas um menino magro (o mesmo ator de "O Silencio") acorda e coloca o óculos para ler um livro, depois vê a câmera, que se torna o rosto de uma mulher (provavelmente seria o filho dela no útero, esperando para nascer). Entram os letreiros todos vanguardistas, predominando o branco, repetindo imagens que já vimos.
A historia começa com uma porta se abrindo e entrando a enfermeira Alma (Bibi Andersson). Bergman disse que concebeu o filme depois de perceber que a semelhança entre as atrizes Bibi (que também havia sido sua namorada) e Liv. É bem descrito pelo trailer original americano que diz que "Persona" "é o reconhecimento da nossa terrível solidão, nossa singularidade, nossa inabilidade de se comunicar com os outros. É uma confissão de nossos medos, do homem,do fracasso, da morte. É o drama do desespero, o silencio, o terror indescritível da vida em todos os aspectos. É um drama da sensibilidade da pele, de rostos e palavras não entendidas. Persona é uma ilusão estiçalhada,uma vitória sobre o silencio".
Popularizou o termo Persona que é o nome da máscara teatral greco-romana e, por extensão, também as mascaras que usamos na vida profissional ou pessoal. Um dueto para as duas atrizes emolduradas pela fotografia genial de Sven Nykvist. Rodado na própria casa e ilha do diretor, em Faro. Bibi fala o tempo todo e Liv diz apenas uma única palavra, "nada".

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terça-feira, 27 de julho de 2010

404. LUZ DE INVERNO (1963)

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Após ler nos jornais que a China possuí a bomba atômica e pretende usá-la, um pescador vai à igreja, buscando palavras de conforto e consolo do pastor. Porém, este não consegue ajudá-lo porque está passando por uma crise de fé, temendo também o apocalipse nuclear.

Realizado no apogeu da Guerra Fria, Luz de Inverno é uma amarga reflexão de Bergman, que teve como modelo o clássico O Diário de um Pároco de Aldeia (1950), de Robert Bresson.(postado aqui nos 1000e1s)

Crítica
"A Luz de Inverno" é o segundo filme da chamada "Trilogia do Silêncio", do diretor sueco Igmar Bergma. Porém hoje, em entrevistas recentes, ele nega que os filmes "Através de um Espelho", este e "O Silêncio" formem uma trilogia sobre o "Silêncio de Deus" e que só disse isso na época porque fazer trilogias estava na moda.

Mas parece estar errado. Ainda que de forma inconsciente, a temática entre os filmes é semelhante, mesmo que se diferenciem na forma e no estilo.

Dos três filmes, "A Luz de Inverno" é o mais seco, o mais distanciado, e o mais difícil de ver. Para começar, Bergman não usa trilha musical, apenas umas poucas músicas incidentais aqui e ali. Como sempre, a fotografia é do seu iluminador habitual, o grande Sven Nykvist, que em poucos exteriores consegue passar o clima opressivo do inferno...
(Cine Uol - Rubens Ewald Filho)

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quinta-feira, 8 de julho de 2010

378. ATRAVÉS DO ESPELHO (1961)

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Uma das principais obras de Ingmar Bergman e o início da "trilogia do silêncio", formada ainda por "O Silêncio" e "Luz de Inverno". Harriet Andersson é a frágil Karin que, afetada por crises de loucura, entra em conflito com seus familiares durante as férias de verão numa ilha distante. Um drama psicológico intenso em que Bergman disseca o processo de degradação de uma família.

Premiações
Oscar (1962)
* Venceu na categoria de melhor filme estrangeiro.
* Indicado na categoria melhor roteiro.
BAFTA (1963)
* Indicado nas categorias de melhor filme e melhor atriz estrangeira para Harriet Andersson.
Festival de Berlim (1962)
* Indicado ao Urso de Ouro

Crítica
Com Através de um Espelho, Ingmar Bergman deu início a sua “Trilogia do Silêncio”, que continuou com Luz do Inverno e terminou em O Silêncio. Todos têm como tema, como o próprio nome indica, o silêncio, seja o silêncio de Deus (recorrente na obra do cineasta), a incapacidade de comunicação ou mesmo o vazio existencial. O tema vem embalado pela música de Bach e pela brilhante, esfuziante, fundamental fotografia de Sven Nykvist (impossível falar da história do cinema sem citar o trabalho do fotógrafo sueco).

Por Através de um Espelho Bergman venceu o primeiro de seus três Oscar de melhor filme estrangeiro - venceria novamente na categoria por A Fonte da Donzela e “Fanny & Alexander”, sendo que os dois últimos venceram e foram indicados em outras categorias, como figurino, direção de arte e o fotógrafo, Sven Nykvist, talvez o maior do cinema em todos os tempos, que também venceu quatro vezes (neste Através de um Espelho seu trabalho é nunca menos que brilhante, criando uma aura especial para os ambientes que se passavam no entardecer e à noite – ele não tinha a mão os artifícios que existem hoje para externas no período noturno.

A trama parece inconcebível para os dias de hoje. Um homem egoísta praticamente abandona os filhos. Está escondendo deles sua mediocridade como escritor, pai e ser humano. Não compartilha da vida deles, renega-lhes atenção, isola-se, sendo que muitas vezes se assusta com o próprio egoísmo e os efeitos perversos que suas atitudes causam.

Sua filha (Harriet Handerson) está com problemas mentais, os mesmos que levaram a mãe à morte, e a enfermidade se agrava rapidamente. O filho, um adolescente carente, faz de tudo para lhe chamar a atenção, mas recebe de volta a frieza, o racionalismo, o desprezo, um tratamento cortês e distante. Há ainda o genro (Max Von Sydow), que cuida com desvelo de sua filha, mas cobra do sogro seu papel na família.

Entre embates verbais ríspidos, planos de tirar o fôlego e uma sobriedade de direção que fizeram o nome de Bergman figurar como um dos maiores do cinema, a trama segue seca, precisa e áspera. O diretor arranca, como de hábito, fenomenais interpretações dos atores. É um filme assustador, que fica na memória e causa enorme desconforto mesmo muito tempo depois de ser visto.

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Sasom.i.en.spegel.(1961).CRiTERiON.B&W.FS.DVDRip.XviD-Rulle.avi

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domingo, 11 de abril de 2010

318. MORANGOS SILVESTRES (1957)

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Morangos Silvestres conta a história de um médico e professor aposentado, Isaak Borg (Victor Sjostrom), que aos 78 anos será homenageado com o título honorário da Universidade de Lund, sua cidade natal, a qual abandonara em favor de Estocolmo. Desde a véspera até a chegada em Lund, Borg é invadido por recordações do passado que confrontam o seu presente. Sonhos, devaneios e flashbacks conduzem-no a um mergulho no inconsciente, fazendo-o perceber que seu temperamento áspero e distante impossibilita o envolvimento afetivo com familiares e amigos, protegendo-o do sofrimento e, por outro lado, isolando-o. A constatação da velhice e solidão trazem a presença iminente da morte, incitando-o a repensar sua vida durante o percurso que faz até Lund. O desencadeador dessa viagem introspectiva é o sonho que teve na noite anterior à partida para a sua celebração.

Premiações
*Festival Internacional de Berlim, Alemanha
Prêmio Urso de Ouro ( Ingmar Bergman)
Prêmio FIPRESCI (Victor Sjöström)
*Festival de Cinema de Mar del Plata, Argentina
Prêmio de Melhor Filme ( Ingmar Bergman)
Prêmio de Melhor Ator (Victor Sjöström)
*Festival Internacional de Veneza, Itália
Prêmio dos Críticos Italianos de Cinema ( Ingmar Bergman)
*Globo de Ouro, EUA
Prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira
*Prêmios Bodil - Copenhague, Dinamarca
Bodil de Melhor Filme
*Sindicato dos Jornalistas Críticos de Cinema, Itália
Prêmio Fita de Prata de Melhor Diretor de Filme Estrangeiro
*Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood, EUA
Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original
*Academia Britânica de Cinema e Televisão, Inglaterra
Indicado ao Prêmio de Melhor Filme
Indicado ao Prêmio de Melhor Ator Estrangeiro (Victor Sjöström)

Crítica
A obra de Ingmar Bergman já se encontra inscrita no cânone cinematográfico. Tal qual Machado de Assis ou Fiódor Dostoiévski para a literatura universal, só para citar dois exemplos, a produção bergmaniana é preciosa para o cinema.
Sua filmografia é vasta, mas se tivéssemos de resumi-la em uma única palavra, talvez a melhor fosse: interiores. Daí, pode-se desdobrar o que configura a grande busca do diretor: o entendimento do que se passa no coração dos homens, a angústia que qualquer um tem diante da existência e de sua finitude, as incongruências da vida a dois, o silêncio que paira, latente e lancinante, entre os homens, ainda que se fale muito e se dialogue muito. Temas universais, como se vê, ainda que quase toda sua obra tenha sido filmada na longínqua Suécia.
No caso de “Morangos silvestres”, a chave para que se penetre no longa não está presente desde seu título, um tanto obscuro, mas interessante. O interesse de Bergman no filme é flagrar a memória, uma das mais importantes ferramentas que um indivíduo tem, pois se trata de uma aliada do conhecimento.
A memória específica de que o sueco fala no filme é a de um professor de idade avançada, que tem um prêmio importante para receber na cidade onde morou, por sua contribuição como docente e como médico. Para chegar ao local da honraria, toma seu carro, e para lá segue com sua nora. No caminho, é tomado por lembranças de episódios de sua longa vida. Lembranças boas e ruins, que trazem à boca e ao coração gosto de mel ou de fel, como ocorre com qualquer indivíduo. O mergulho feito pelo personagem em suas memórias é acompanhado pelo espectador, que flagra a infância do personagem ,na qual ele costumava colher morangos silvestres, o que justifica o título dado ao filme. O idoso relembra festas, diálogos, pessoas, cores, sabores, texturas e emoções que o atravessaram ao longo do tempo.

Ainda que em preto e branco, a história é contada com belas imagens, e num ritmo lento para os padrões contemporâneos. Lentidão que cabe às recordações de alguém que já não tem mais seus vinte anos. E vale lembrar também que o longa foi rodado no distante ano de 1957, época em que Bergman dirigira outra pérola: “O sétimo selo”. Apesar de longe no tempo, o cinema de Bergman não ficou datado. Suas questões são ainda atuais, pois o ser humano é sempre ser humano, em qualquer lugar ou momento histórico.
Os filmes do cineasta evocam todo tipo de discussão: filosófica, existencial, psicanalítica. A preocupação aqui não é enveredar por nenhum desses caminhos, mas apenas descrever o êxtase gerado pela contemplação de pequenas epifanias de alguém que já percoreu uma extensa trajetória, o que Bergman faz como poucos. Ele desnuda o humano, expondo suas fragilidades, tendo a câmera como cúmplice. É como se, em certa medida, o espectador também fosse desnudado, a partir da identificação que tem com as cenas apresentadas.
São esses fatores que, somados, dão beleza, graça e vitalidade a “Morangos silvestres”. É cinema autoral, que não se faz preocupado em arrebatar grandes platéias, e que deleita olhos enfadados de efeitos visuais escalafobéticos. Um cinema que se faz sem traço algum de maniqueísmo, sem a preocupação de se colocar um herói e seu antagonista. Até porque, sabe-se muito bem, nós mesmos podemos ser nossos maiores inimigos.
Assistir ao filme é tarefa obrigatória. Mas é uma obrigação que e cumpre com extremo prazer por aqueles que se interessam por vislumbrar a dimensão do humano, e que desejam compartilhar, ainda que pela simples contemplação, a dúvida sobre o sentido da vida, a maior inquietação que temos.

Por Patrick Corrêa dos Santos Ferreira MKO 29/09/2009

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Wild.Strawberries.(1957).FS.B&W.DVDRip.XviD-OS.iLUMiNADOS.avi

Legenda (PTBR,ENG,SPA obtidas no MKO, postadas por mfcorrea)

sábado, 10 de abril de 2010

316. O SÉTIMO SELO (1957)

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Antonius Block retorna das cruzadas e encontra sua vila destruída pela peste negra. Depois disso passa a refletir sobre o sentido da vida, mas a Morte (Bengt Ekerot) aparece para levá-lo. Porém, Block se recusa a morrer sem ter entendido o sentido da vida e propõe um jogo de Xadrez, onde se ele ganhar continua a viver. Apesar de perder o jogo, a Morte continua a perseguí-lo enquanto viaja pela Suécia medieval.

Curiosidades
O título O Sétimo Selo é uma referência ao capítulo 8 do Livro de Apocalipse na Bíblia.
"Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora.Então vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas."
Este é o primeiro de uma série de de dez filmes em que o ator Max Von Sydow trabalhou com o diretor Ingmar Bergman. - Este é o 10º de 13 filmes em que o diretor Ingmar Bergman e a atriz Bibi Andersson trabalharam juntos.
Ingmar Bergman baseou toda a iconografia do filme nos murais de uma igreja onde seu pai, um clérigo, costumava freqüentar e orar.
Entre os mais de 50 filmes dirigidos por Bergaman, este é um de seus favoritos.

Premiações
Festival de Cannes 1957 (França)
* Recebeu o Prêmio do Júri e foi indicado à Palma de Ouro.
Fotogramas de Plata 1962 (Espanha)
* Venceu na categoria de Melhor Ator Estrangeiro (Max von Sydow).
Sindacato Nazionale Giornalisti Cinematografici Italiani 1961 (Itália)
* Venceu na categoria de Melhor Diretor - Filme Estrangeiro (Ingmar Bergman).

Crítica
A primeira reação de um espectador típico do século XXI a “O Sétimo Selo” (Det Sjunde Inseglet, Suécia, 1957) é, normalmente, de estranhamento. A obra-prima de Ingmar Bergman não se encaixa no formato narrativo popularizado pela cultura cinematográfica baseada em Hollywood. Desde que a indústria cinematográfica começou a se firmar, nos idos da década de 1920, a maioria dos filmes tenta reproduzir a realidade. Apenas exceções buscam vias alternativas – e “O Sétimo Selo”, que é baseado em uma metáfora engenhosa e ao mesmo tempo muito simples, se afasta completamente do realismo, incluindo referências e alegorias de caráter religioso que expõem, de forma direta, o grande tema da obra: o silêncio de Deus.

O tema principal de “O Sétimo Selo” é, também, a temática dominante da primeira metade da obra de Bergman, composta de 62 longas-metragens. De meados dos anos 1940 até o princípio dos anos 1960, o diretor sueco trilhou diversas matizes do registro dramatúrgico – comédias, dramas, tragédias – através de variações do mesmo tema, que poderia ser resumido em uma pergunta: se Deus realmente existe, por que ele não fala, ou não interfere no destino trágico da humanidade? Vale ressaltar que aquela era a época do medo do holocausto nuclear, e a Europa ainda vivia o rescaldo da destruição causada na II Guerra Mundial. Tanto sangue derramado havia mergulhado os europeus, os artistas em especial, em uma fase de torturantes dúvidas religiosas.

Este trauma era ainda mais forte, em Bergman, devido ao background pessoal. Filho de um pastor luterano, o cineasta sueco cresceu em um ambiente de enorme repressão. Era constantemente surrado pelo pai, e sofria com a indiferença sentimental que ele lhe dedicava. Ao mesmo tempo, foi doutrinado desde pequeno através de uma educação protestante bastante rígida. O resultado foi o desenvolvimento de sentimentos ambivalentes, no que se refere à religião. Bergman se dizia ateu, mas fez diversos filmes cuja noção de Deus estava fortemente presente. Muitos críticos vêem, na postura crítica do sueco ante a religião, uma revolta contra o próprio pai, e não propriamente contra Deus.

Tudo isso se infiltrou com força em “O Sétimo Selo”, cuja história nasceu de uma peça teatral. Ao adaptar o enredo para o cinema, o cineasta optou por manter os traços não-realistas oriundos da origem nos palcos, e incrementou esta opção através de uma estética derivada de movimentos como o expressionismo, que adotavam técnicas radicais de iluminação para sugerir um cenário além da realidade. Com uma produção pobre, Bergman filmou quase tudo em estúdio, inclusive as cenas que se passam em florestas, o que justifica o uso de muitos planos com a câmera postada próxima aos atores. A história reúne esquetes em torno de uma situação única: uma partida de xadrez, disputada ao longo do filme, entre um homem comum e a Morte.

Bergman decidiu ambientar o enredo na Idade Média por uma razão objetiva: devido à Peste Negra e ao contexto das Cruzadas, aquele é o período histórico que melhor se assemelhava aos sangrentos anos 1950, e portanto se prestava muito bem a discutir o problema do silêncio divino. O protagonista virou um cavaleiro retornando das Cruzadas (Max von Sydow). A imagem adotada para a morte foi exatamente aquela oriunda da Idade Média – um ser encapuzado, vestido de negro, que porta uma foice. Além disso, a fotografia (iluminação, enquadramentos) e a cenografia foram ajustadas para que as diversas seqüências, organizadas de forma não-linear, reproduzissem imagens de afrescos pintados em uma igreja centenária que Bergman freqüentava quando criança.

A metáfora principal do filme, tornada mais clara nas longas conversas mantidas entre a Morte e o cavaleiro, funciona com eficiência – é simples, básica, engenhosa, atinge um nível profundo, quase como uma fábula. Além disso, o sueco pontua toda a ação com alegorias e referências religiosas que nem sempre têm intenção muito clara, mas contribuem para impregnar a obra de uma religiosidade melancólica e tortuosa, o que reforça a investigação do tema.

Um exemplo? Há uma família de andarilhos no filme, que o cavaleiro encontra e toma sob sua proteção, formada por pai, mãe e bebê. Muitos críticos interpretam esta família como uma metáfora para Jesus, José e Maria. Bergman jamais confirmou ou negou esta hipótese, mas ela parece bem plausível, inclusive porque o cavaleiro tem uma epifania justamente quando encontra o trio. Mas, afinal, o que a aparição da família quer dizer? A explicação fica por conta de cada espectador. Na obra de Bergman, não há respostas fáceis.
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